Rosácea tem cura? O que a ciência realmente diz sobre tratamento e controle
Por Dr. Marcelo Nunes | Pós-graduado em dermatologia clínica e estética
Quem convive com a rosácea provavelmente já ouviu muitas promessas como cremes milagrosos, dietas específicas, tratamentos "definitivos". E, com toda razão, uma das perguntas mais frequentes no consultório é: "Doutor, isso tem cura?"
A resposta honesta merece mais do que um simples sim ou não.
A resposta direta: não há cura, mas há controle eficaz
Segundo o Consenso sobre Tratamento da Rosácea, elaborado por especialistas a convite da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e publicado nos Anais Brasileiros de Dermatologia em 2020, é claro: apesar da impossibilidade de cura, existem diversas opções terapêuticas, específicas para cada paciente, que proporcionam resultados eficazes, promovendo impacto positivo na qualidade de vida.
Isso não é uma má notícia. É, na verdade, o ponto de partida para um plano terapêutico realista e que funciona de verdade.
O que é a rosácea, do ponto de vista científico

A rosácea é uma doença inflamatória crônica da pele, de complexa etiopatogênese, envolvendo alteração imunológica e desregulação neurovascular. Seus mecanismos produzem as alterações centrais da doença: inflamação, vasodilatação e angiogênese (responsáveis pelas manifestações clínicas que o paciente percebe no rosto). A doença é relativamente mais frequente em mulheres acima dos 30 anos, com fototipos mais baixos, e apresenta comprovada predisposição genética.
Um dado relevante: estudo multicêntrico brasileiro conduzido pelo Grupo Brasileiro de Pesquisas e Estudos em Rosácea (GBPER), publicado nos Anais Brasileiros de Dermatologia em 2025, mostrou que 96% dos pacientes com rosácea relatam fatores agravantes, sendo os mais comuns exposições climáticas, bebidas alcoólicas e alterações emocionais.
Isso significa que a doença é sensível ao ambiente e aos hábitos do paciente, o que, por outro lado, também significa que o controle é possível com as escolhas certas.
O que o tratamento correto pode alcançar
Segundo o Consenso SBD sobre tratamento da rosácea, com tratamento bem conduzido é possível:
Reduzir significativamente a frequência e a intensidade das crises
Controlar o eritema (vermelhidão) persistente e as telangiectasias (vasos visíveis)
Obter períodos prolongados de remissão
Prevenir a progressão para formas mais graves, como o rinofima
Melhorar a qualidade de vida de forma mensurável
O mesmo consenso fundamenta todas as recomendações a seguir.
As opções terapêuticas disponíveis
O Consenso SBD ressalta que, independentemente do grau de envolvimento clínico, todo paciente com rosácea deve adotar medidas gerais como base do tratamento:
Limpeza adequada com produtos suaves, sem ingredientes irritantes
Hidratação diária, essencial para restaurar a barreira cutânea comprometida
Protetor solar de amplo espectro (UVA + UVB) com FPS elevado, aplicado todos os dias, inclusive em dias nublados, pois a radiação ultravioleta é um dos principais fatores desencadeantes e agravantes da doença
Identificação e controle dos gatilhos individuais: álcool, bebidas quentes, alimentos condimentados, variações extremas de temperatura, vento, esforço físico intenso e fatores emocionais
Tratamentos tópicos
Os medicamentos de uso local são frequentemente a primeira linha de abordagem. O Consenso SBD estabelece os seguintes níveis de evidência:
Ivermectina tópica: alta evidência para redução de pápulas e pústulas, com ação anti-inflamatória e sobre o Demodex folliculorum, ácaro associado à piora da rosácea
Ácido azelaico: também com alta evidência, atua na inflamação e em alterações pigmentares associadas
Metronidazol tópico: evidência moderada; amplamente utilizado e com bom perfil de segurança para uso prolongado
Brimonidina: alta evidência para redução temporária do eritema persistente
Oximetazolina: evidência moderada para o controle do eritema
O uso de tópicos, em geral, precisa ser mantido na fase de manutenção para preservar os resultados conquistados.
Tratamentos sistêmicos (orais)
Em casos moderados a graves, ou quando os tópicos isolados não são suficientes, o Consenso SBD orienta:
Doxiciclina em dose sub-antimicrobiana: evidência moderada a alta; atua principalmente pela via anti-inflamatória, com menor risco de resistência bacteriana em relação às doses convencionais
Isotretinoína oral em doses baixas: evidência moderada a alta; indicada em casos persistentes e recidivantes, especialmente nas formas pápulo-pustulosas intensas e na rosácea fimatosa. Para manutenção em casos selecionados, pode ser usada em microdoses (20 mg/semana), com rigoroso controle laboratorial
Laser, luz intensa pulsada (LIP) e outras tecnologia
Para eritema persistente e telangiectasias — vasos visíveis que não respondem a tópicos — o Consenso SBD orienta que diversas fontes de laser, LIP e aparelhos emissores de luz podem ser utilizados. As maiores aplicações dessas tecnologias são para melhora do eritema, das telangiectasias e dos fimas.
O nível de evidência científica para laser e LIP é classificado como baixo a moderado no consenso, o que reflete limitações metodológicas dos estudos disponíveis, e não ausência de eficácia clínica. Radiofrequência, ultrassom, eletrocirurgia e microagulhamento também têm indicações específicas conforme o quadro de cada paciente.
Para o rinofima, espessamento progressivo da pele, mais comum em homens, as tecnologias e a cirurgia são as principais abordagens, sendo o tratamento clínico isolado insuficiente nessa fase da doença.
O que esperar a longo prazo
A rosácea é uma doença flutuante: melhora com tratamento adequado e pode recrudescer sem ele, ou diante de gatilhos não controlados.
Com plano terapêutico bem conduzido e adesão do paciente: controle das crises, redução do eritema e das lesões, melhora visível da aparência e do conforto da pele, e proteção contra progressão para formas mais graves.
Sem tratamento ou com abandono precoce: tendência de agravamento gradual, possível progressão para lesões mais inflamatórias, telangiectasias mais extensas e, nos casos avançados, rinofima.
Há ainda uma dimensão que não pode ser ignorada: o impacto psicossocial da rosácea. Pesquisa publicada nos Anais Brasileiros de Dermatologia demonstrou que a rosácea é uma das alterações cutâneas psicossomáticas que podem flutuar de acordo com o estado emocional, e que comorbidades psiquiátricas não detectadas podem ampliar tanto a gravidade clínica quanto o impacto na qualidade de vida. O estudo multicêntrico GBPER (2025) confirmou que a qualidade de vida foi comprometida na maioria dos pacientes avaliados.
Por onde começar
O primeiro passo é o diagnóstico preciso. A rosácea se apresenta de formas muito variadas: eritema periódico ou persistente, pápulas e pústulas, telangiectasias, alterações oculares ou rinofima. Cada fenótipo pede uma abordagem terapêutica diferente.
Se você convive com vermelhidão facial persistente, sensação de queimação ou lesões que não melhoram com produtos comuns, não adie a consulta. Quanto mais precoce o diagnóstico, melhores e mais duradouros os resultados.
Dr. Marcelo Nunes é Médico pós-graduado em dermatologia clínica e estética, pós-graduado em Medicina de Família e Comunidade, com atendimento em Moema, São Paulo. Oferece consultas para diagnóstico e tratamento individualizado da rosácea e demais doenças dermatológicas.
📍 Moema, São Paulo
📅Agendamentos: https://www.doctoralia.com.br/marcelo-oliveira-nunes-2/
Fontes:
Oliveira CMM, Almeida LMC, Bonamigo RR, Lima CWG, Bagatin E. Consenso sobre tratamento da rosácea — Sociedade Brasileira de Dermatologia. Anais Brasileiros de Dermatologia. 2020;95(Suppl 1):53–69. DOI: 10.1016/j.abdp.2020.08.001
Bonamigo RR et al. Perfil clínico-demográfico, fatores agravantes, comorbidades e qualidade de vida em pacientes com rosácea: estudo multicêntrico brasileiro (GBPER). Anais Brasileiros de Dermatologia. 2025.
LI, W. Q.; HAN, J. L.; CHAN, A. T.; QURESHI, A. A. Rosácea associada a risco aumentado de transtorno depressivo maior. Anais Brasileiros de Dermatologia, Rio de Janeiro, v. 94, n. 4, p. 437-443, 2019.